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O camarão que virou presença rara no Paraíba Tulio Brandão O Globo, 15 de abril de 2004 (Rio de Janeiro) |
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A
famosa lagosta do Baixo Paraíba é muito mais que uma carne macia para
Domingos Afonso. Com os crustáceos capturados ao longo de seus 50 anos, o
pescador analfabeto garantiu um futuro mais farto para os três filhos,
todos universitários. Ironia do destino: eles agora correm o risco de não
mais degustar o prato que os sustentou. Durante décadas, a pesca predatória,
a Festa da Lagosta de São Fidélis e ainda a degradação do Rio Paraíba
do Sul deixaram sob ameaça de extinção o crustáceo, na verdade um
camarão (pitu) tão grande — atinge 48 centímetros — que ganhou o
nome de lagosta. A escassez virou um símbolo do descontrole da pesca no
Paraíba. Projeto
tenta repovoar rio com o crustáceo A
fartura das décadas passadas desapareceu do rio. A ignorância foi a isca
para agravar o problema. A pesca era mais intensa nos meses que antecediam
o evento (realizado em abril), justamente de janeiro a março, período de
maior ovulação do animal. Só no primeiro trimestre de 1972, por
exemplo, sete toneladas do crustáceo foram pescadas, interrompendo o
ciclo reprodutor. Domingos percebeu o sumiço da espécie e, ao lado de
Joacy Ferreira Gonçalves, criou um projeto de repovoamento na colônia
Z-21. —
Na década de 70, um biólogo alemão veio estudar as lagostas e me falou:
“É uma pena, mas as lagostas vão desaparecer do rio”. Isso numa época
em que o Paraíba parecia a Avenida Brasil, de tanto farol (as antenas dos
crustáceos) fora d’água. De tanto pegarem lagosta ovada, elas sumiram.
Decidimos reagir — conta Domingos, de 60 anos, vice-presidente da colônia.
Em
1988, foi realizada a última grande festa da lagosta, mas a pesca predatória
não acabou em São Fidélis. Diante da crise, a colônia iniciou, ano
passado, um projeto de repovoamento artesanal da espécie. Os pescadores
tiram a lagosta ovada do rio, levam-na para um aquário e esperam a
desova. Depois, levam as larvas protegidas para a água doce. Estavam em
plena experiência quando os rejeitos da Indústria Cataguazes de Papel,
que vazaram no Rio Pomba, chegaram ao trecho fidelense do Paraíba do Sul,
em 2003: —
Vimos que o repovoamento estava dando certo quando fileiras enormes de
lagostas saíram sufocadas pelas margens do rio, buscando abrigo para
fugir daquele veneno. Em compensação, nosso projeto voltou à estaca
zero. Mas já recomeçamos, vamos conseguir repovoar esse rio — acredita
Joacy, presidente da Z-21. Bióloga
sugere dois anos de proibição da pesca Nos
primeiros levantamentos feitos pela colônia este ano, a lagosta deu
sinais positivos de recuperação: em 30 dias, sete pescadores retiraram
2.010 crustáceos do rio, o que corresponde a 290 quilos. A
situação pode ficar ainda melhor porque Elane Oliveira da Silva, uma bióloga
de São Fidélis, na época universitária, estudou durante um ano a espécie
e elaborou regras de pesca controlada para regularizar a situação. No
estudo, ela sugeriu um período de dois anos de proibição integral da
pesca dessa espécie e, depois disso, um defeso (para machos e fêmeas) de
janeiro a março, época em que os pitus são mais férteis. Além disso,
passaria a ser proibida a pesca de espécimes menores que 11,5 centímetros.
—
Se conseguirmos tornar efetivas essas regras, poderemos afastar o risco de
extinção. Atualmente, a espécie está na lista estadual de espécies
ameaçadas — disse Elane. Um
bom sinal veio do escritório do Ibama de Campos, que encampou a idéia e,
usando os parâmetros estabelecidos por Elane, sugeriu a criação de uma
portaria regional para a preservação da espécie. —
Reunimos várias informações para decidir pela portaria: o estudo de
Elane, o declínio da pesca local e, sobretudo, o pedido dos pescadores
— diz Rosa Maria Castelo Branco, chefe do escritório do Ibama de
Campos. Nesta
semana, o pedido será encaminhado para a diretoria do órgão em Brasília,
já que o Rio Paraíba do Sul é de jurisdição federal. Vinte
e cinco toneladas de manjuba pescadas este ano Enquanto
não revivem a fartura das lagostas, os pescadores de São Fidélis ganham
a vida com outras espécies, como a manjuba, que tem subido o rio desde a
foz e enchido a rede dos fidelenses. Neste ano, segundo a colônia Z-21, já
foram pescadas 25 toneladas do peixe, melhor marca da cidade nos últimos
15 anos. —
Isso porque ainda há redes ilegais na foz do rio, em São João da Barra.
No dia em que estiver tudo nos conformes, vai saltar manjuba dentro do
barco — brinca Joacy.
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