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Sedes de 3 prefeituras poluem Paraíba do Sul Tulio Brandão O Globo, 13 de abril de 2004 (Rio de Janeiro) |
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Tubulações
lançam, sem vergonha nem tratamento, o esgoto despejado pelas sedes das
prefeituras de três das principais cidades do Médio Paraíba —
Resende, Barra Mansa e Volta Redonda — nas águas do Rio Paraíba do
Sul. A imagem, símbolo da histórica negligência do poder público na
questão ambiental, é também a mostra mais contundente de que o grande
pesadelo dos municípios dessa região atualmente é o tratamento de
efluentes domésticos. Os
administradores que lançam o próprio esgoto no rio desrespeitam a
Constituição Estadual, que obriga o tratamento primário de todos os
efluentes lançados no rio, e podem ser autuados no artigo 54 da Lei de
Crimes Ambientais, que prevê pena de até cinco anos de reclusão. Administrador
diz que está investindo em cinco estações Os
prefeitos das três cidades reconhecem que, por falta de recursos, suas
respectivas sedes administrativas realmente poluem o Paraíba com esgoto
sem tratamento. Eduardo Meohas, prefeito de Resende e presidente do Comitê
para a Integração da Bacia Hidrográfica do Paraíba do Sul (Ceivap),
investe para construir cinco estações de tratamento até o fim do
mandato, mas diz que nenhuma delas captará os efluentes do bairro onde a
prefeitura está localizada: —
Como o estado se omite, só resta a verba municipal. Em junho, estaremos
com 43% dos efluentes da cidade tratatos. Se considerarmos que a média
estadual nos municípios do Paraíba é de 2%, estamos bem. Mas sei que
ainda falta muito. O efluente que sai próximo à prefeitura, realmente
sem tratamento, não terá solução até o fim de minha gestão. Há
cinco estações sendo construídas neste momento, mas nenhuma no local. Não
temos dinheiro para tratar toda a cidade, priorizamos áreas mais
populosas. O
Rio Paraíba corre, sujo, na direção de Barra Mansa, onde o prefeito
Roosevelt Brasil diz que, enquanto o Plano Diretor de Saneamento não
estiver concluído e as primeiras obras não forem iniciadas, a cidade terá
o assustador índice de apenas 1% do esgoto doméstico tratado por estações.
—
Tratamos realmente muito pouco, por uma questão histórica. Mas estamos
investindo na conclusão do plano. Já há ações previstas, bancadas por
recursos da Agência Nacional de Águas (ANA), para a implantação da
rede de esgoto no bairro de Saudade, com previsão de conclusão para
2005. Todo o saneamento da cidade está estimado em R$ 40 milhões — diz
Roosevelt. As
águas ganham mais carga orgânica do esgoto doméstico em Volta Redonda,
cidade historicamente afetada pela emissão de resíduos industriais. O
prefeito do município, Antônio Francisco Neto, admite o lançamento
irregular de esgoto no Paraíba, mas garante que uma estação já
licitada vai acabar com o problema. —
Há uma obra já licitada (vencida pela empresa Ferreira Guedes) que usará
verbas do Fundo Estadual de Conservação Ambiental (Fecam). Depois de
pronta, teremos 76% do esgoto tratado, inclusive no bairro onde fica a
sede da prefeitura. De fato, atualmente não tratamos o esgoto porque o prédio
é muito antigo. Todas as novas construções da cidade tem estações de
tratamento — garante Neto. O
advogado Rogério Zouein, especializado em direito ambiental, aponta as
infrações cometidas pelos administradores e diz que a falta de recurso não
serve de justificativa para o crime ambiental. —
Eles violam a Constituição Estadual, que obriga no mínimo o tratamento
primário antes do lançamento, e ferem o artigo 54 (parágrafo 2, inciso
5), que fala sobre o crime do lançamento de resíduos líquidos e sólidos
em rios. A falta de dinheiro poderia ter sido sanada com soluções
administrativas. Se o próprio município, que é concessionário do serviço,
polui os rios, com que autoridade vai reprimir outros agentes que lançam
esgoto in natura — questiona o advogado. Segundo
o Comitê para a Integração da Bacia Hidrográfica do Paraíba do Sul
(Ceivap), a região mais degradada do rio é justamente a do Médio Paraíba,
devido à concentração industrial e ao crescimento populacional recente.
Em
viagem pelo trecho fluminense do Rio Paraíba do Sul, repórteres do GLOBO
encontraram pescadores como o motorista Reginaldo Ribeiro, de 32 anos, que
pescava perto das saídas de esgoto não tratado de Resende. Mesmo
desempregado, ele confessou não ter coragem de usar os peixes como
alimento: —
Tem esgoto por todos os lados. Eu fico perto da manilha porque dá mais
peixe, mas não como nada que pesco. Venho só para descansar a cabeça. A
explosão demográfica explica por que, na região, o vilão atual do rio
é o esgoto doméstico. Da década de 40, quando foi inaugurada a
Companhia Siderúrgica Nacional, em Volta Redonda, até 2000, o número de
habitantes passou de 159.496 para 785.192, segundo o Centro de Informações
e Dados do Rio de Janeiro. A população foi multiplicada por cinco, assim
como o volume de efluentes. Presidente
de associação reclama de esgoto hospitalar Em
Barra Mansa, as manilhas se multiplicam pelas margens. No canal que cerca
a ilha onde funciona o Sesc local, uma tubulação joga esgoto sem nenhum
tratamento, em frente ao Hospital Menino Jesus. Segundo o presidente da
associação de canoeiros e defensores da natureza, Sérgio Coelho dos
Santos, aqueles efluentes sem tratamento são de origem hospitalar. Do
outro lado do rio, a manilha recebe a descarga da Santa Casa de Misericórdia:
—
A única estação de tratamento existente na cidade trata o esgoto de um
bairro. Estamos contaminados até por efluentes hospitalares. Roosevelt
diz que o município recolhe resíduos sólidos de hospital e não tem
informações sobre o lançamento de efluentes não tratados: —
Todos os hospitais, em tese, têm estações próprias. Cabe à Feema a
fiscalização dessas irregularidades. Os
canoeiros tentam alterar o quadro atual com informação. Roberto Silva,
coordenador da associação, dá aulas de conscientização ambiental há
oito anos. Já formou 16 mil alunos. Entre as informações divulgadas,
estão estudos da Universidade de Barra Mansa (UBM). Biólogos da instituição
fizeram durante o ano análises pontuais do rio. Constataram uma piora nos
índices de poluição em todos os pontos do rio. Na última coleta, em
dezembro, em oito dos quinze resultados o número de coliformes fecais
ultrapassou 100 mil a cada 100 mililitros de água — o máximo permitido
é de apenas mil. Roberto
denuncia um assoreamento criminoso, outro problema de Barra Mansa. Há
trechos com 100 metros de aterros criados por entulhos de construtores da
cidade. O prefeito reconhece o problema e diz estar se esforçando para
combatê-lo: — Infelizmente, muitos construtores jogam o entulho no rio, em vez de contratar uma caçamba. Um dia, todo esse lixo volta com a cheia.
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