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O desafio de levar água para todos André Trigueiro Revista SENAC-e Educação Ambiental, ano 12, nº1, jan/abr 2003 |
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O século XX marcou o início de uma era marcada pela escassez do mais precioso dos líquidos. A população do planeta triplicou nesse período enquanto o consumo de água foi multiplicado por 6. Mesmo num país de dimensões continentais como o Brasil, que detém o maior estoque de água doce do planeta, a gestão dos recursos hídricos é tarefa inadiável e urgente. Para isso foi criada a ANA - Agência Nacional de Águas - que tem como missão disciplinar o uso dos rios, evitando a poluição e o desperdício e ainda por cima garantir água de boa qualidade para as gerações futuras. Engenheiro civil com mestrado em Engenharia Hidráulica pela UFRJ e PHD em Hidrologia e Recursos Hídricos pela Universidade do Estado de Colorado, Jerson kelman é a maior autoridade em recursos hídricos do país. Ao atravessar a fronteira que separa o meio acadêmico das ações de governo, Jerson kelman aceitou o desafio de estruturar a ANA e transformá-la num centro de decisões importante para a vida de milhões de brasileiros. Desde sua criação em janeiro de 2001, a ANA - uma autarquia sob regime especial com autonomia administrativa e financeira - avalizou a criação de oitenta comitês de gerenciamento de bacia, uma espécie de condomínio das águas, que vem determinando ações inéditas e de grande impacto na recuperação dos rios brasileiros. Apesar do pouco tempo de atividade, a ANA trouxe inovações importantes para a moralização das obras financiadas com recursos públicos. Por exemplo: no caso de uma estação de tratamento de esgoto, o dinheiro é liberado depois que a obra estiver pronta, em parcelas correspondentes ao volume de esgoto tratado. Dessa maneira, 28 novas estações foram construídas a toque de caixa, sem interrupções ou escândalos financeiros. À frente de 350 funcionários, Jerson Kelman enfrenta com entusiasmo problemas históricos do Brasil como a escassez de recursos hídricos no Nordeste e os altos índices de desperdício de água no país. Num momento em que tanto se fala no programa Fome Zero, vem de uma experiência apoiada pela ANA a inspiração para o projeto Sêde Zero. Agraciado no último mês de março com o Prêmio Hassan II, uma espécie de Nobel das Águas, oferecido pelo governo do Marrocos a personalidades e instituições que se destacam no gerenciamento de recursos hídricos, o diretor presidente da ANA revela nesta entrevista a verdadeira situação do Brasil hoje quando o assunto é água. 1)
Embora o Brasil seja o país com o maior volume de água doce do
mundo, a distribuição dessa água se dá de forma absolutamente desigual
em nosso território. O que está ao alcance da ANA fazer para reduzir
essa desigualdade e garantir água para todos? R:
A má distribuição da água afeta de modo dramático o Semi-árido
nordestino. É uma região em que a disponibilidade hídrica anual “per
capita” é inferior a 2 mil metros cúbicos, quando a média nacional
supera 40 mil metros cúbicos. A ANA vem atuando em quatro frentes para
enfrentar o problema. Primeiro, a ANA tem uma parceria com mais de 600
ONGs, reunidas numa instituição chamada Articulação do Semi-Árido -
ASA, para a construção de cisternas em casas de famílias humildes
localizadas em comunidades de baixa densidade demográfica, cujo acesso a
água encanada seria excessivamente caro. Através desta parceria, foram
construídas mais de 12 mil cisternas, um investimento de cerca de R$ 10 milhões. O programa capacita a mão-de-obra local, envolve a família
na construção e, mais importante, ensina como captar e filtrar a água
de chuva que cai no telhado para encher a cisterna, que é um tanque com
capacidade de armazenar 16 mil litros. Este volume é suficiente para
atender as necessidades de uma pessoa ao longo de seis meses. Supondo que
a família seja constituída por cinco pessoas e que não chova ao longo
de seis meses, a cisterna seria capaz de atender a apenas 20% do consumo
pleno. Embora
pouco, é mais do que nada. Como diz a Ministra Marina Silva, é uma espécie
de cesta básica de água. Segundo, a ANA está desenvolvendo um atlas de
projetos de obras para suprimento confiável
para cidades com mais de 5 mil habitantes. São mais de mil
cidades. Os projetos, quando executados, “farão a água caminhar” dos
açudes ainda subutilizados para onde as pessoas vivem e trabalham. Em
muitos casos uma mesma adutora servirá a diversas localidades, tomando
partido do efeito escala. Quando pronto, o atlas deverá funcionar como
uma espécie de “cardápio” para os deputados e senadores que têm a
responsabilidade, todo o ano, de preparar o orçamento federal.
A idéia é que a decisão de realizar a obra a ou a obra b
continue a ser política. Só que, qualquer que seja a escolha, se a obra
for selecionada do atlas, terá consistência técnica. Trata-se de uma
iniciativa que, se bem aceita pelo Congresso Nacional, contribuirá
significativamente para dar mais eficácia ao gasto público. Terceiro,
nenhuma obra hídrica de grande porte poderá ser construída com ajuda
federal sem que a ANA certifique que o empreendimento efetivamente
aumentará a disponibilidade de água. A intenção da certificação é
evitar que se continue, como nos últimos 150 anos, a realizar na região
investimentos improdutivos e operacionalmente não sustentáveis. Por
exemplo, em açudes rasos, que mais servem para evaporar do que para
regularizar a descarga fluvial, ou em açudes fundos, porém desprovidos
de canais e adutoras para conduzir a água do açude para onde ela é
necessária. O caso da cidade de São Raimundo Nonato, no Piauí, é típico:
sempre sofre racionamento de água nos anos de seca, embora se situe a
apenas 43 km do açude Petrônio Portela, com capacidade de armazenamento
de 181 bilhões de litros, o suficiente para encher mais de 10 milhões de
cisternas. A
certificação visa também garantir que o empreendimento seja sustentável.
A intenção é evitar que se inaugurem obras que só funcionam por pouco
tempo, devido à inexistência de alguma instituição com suficiente
capacidade técnica e econômica para prover a correta operação e
manutenção. Quarto, a ANA está desenvolvendo alguns trabalhos para
incentivar a racionalização do uso da água, principalmente na
agricultura – maior usuário dos recursos hídricos - onde o desperdício
é maior. Por exemplo,
atuamos juntos com o Governo do Estado do Ceará na bacia do rio Jaguaribe
para limitar o cultivo de arroz por inundação. Em 2001 havia pouca água
nos açudes e, como se sabe, rizicultura necessita de grande quantidade de
água. A diminuição do plantio se estabeleceu por decisão dos próprios
lavradores, em troca de algumas medidas compensatórias. Esta ação
permitiu a manutenção e a expansão da fruticultura, que utiliza menos
água e produz mais, tanto em valor agregado quanto em número de
empregos. Durante
o período, gerou-se uma receita extra de R$ 35 milhões, em
relação ao que teria sido o resultado se os rizicultores tivessem tomado
partido de sua posição privilegiada,
a montante dos fruticultores, para se apropriarem da água.
Utilizou-se parte da receita extra para compensar financeiramente os
rizicultores que voluntariamente diminuíram ou eliminaram o uso de água.
2)
Estas medidas, na sua opinião, seriam suficientes para garantir
abastecimento de água no Semi-árido? Ou são apenas soluções
emergenciais? R:
Estas medidas são necessárias
mas não suficientes para
prover, a longo prazo, água com garantia no Semi-árido
setentrional. Nos próximos vinte anos, será necessário importar água
para os estados de Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba e
Pernambuco. Entretanto, antes que o Governo Federal se comprometa com a
transposição do rio São Francisco, ou do rio Tocantins, os beneficiários,
públicos e privados, devem se comprometer com um arranjo legal,
institucional e financeiro que garanta a correta utilização da
infra-estrutura que vier a ser implementada. A
entidade que ficar encarregada da operação do sistema de transposição
deverá ser vista como mais uma usuária da água da bacia doadora, em
igualdade de condições com outros usuários localizados, no caso de
transposição a partir do São Francisco, em Minas Gerais, Bahia,
Pernambuco, Sergipe ou Alagoas. Para minimizar conflitos, a ANA está
desenvolvendo regras operacionais que permitam a convivência respeitosa
entre todos os usuários. 3) Segundo o Banco Mundial, a água fornecida pelos carros-pipa no Nordeste é a mais cara do mundo. Custa dez vezes mais do que a água distribuída por empresas de saneamento públicas ou privadas. Qual a solução para esse problema? R:
Se os moradores de Ipanema, no Rio de Janeiro, tivessem que se
mudar para o Semi-árido nordestino, podendo manter suas rendas, não
demoraria muito para que fosse estabelecido um suprimento confiável de água.
Esta conjectura serve para destacar que a falta de água em alguns locais
do Brasil não decorre da falta de recursos naturais, de recursos humanos,
de capacidade técnica ou de instituições. Decorre, isto sim, da falta
de renda das populações, que não conseguem pagar o custo do serviço. Garantir
o abastecimento de água de uma pequena cidade no Semi-árido freqüentemente
implica a construção de adutora com dezenas de quilômetros, ligando a
cidade a algum açude suficientemente profundo para resistir à contínua
perda de água por evaporação, que ocorre numa seqüência de anos de
seca. Como a população não tem suficiente renda para pagar pelo serviço,
fica na dependência de alguma reserva de água local, de baixa
confiabilidade. Num ano de seca intensa, o Governo Federal gasta caminhões
de dinheiro com carros pipa para assegurar a sobrevivência, evitando
desastres como o de 1877-78, quando quase um milhão de nordestinos
morreram de sede e de fome. Seria
preferível que este fluxo espasmódico de recursos fosse substituído por
um fluxo contínuo de subsídios que seriam concedidos para comunidades
com disposição de pagar um preço unitário pelos serviços - a tarifa -
compatível com a respectiva capacidade de pagamento. A diferença entre o
custo unitário e a tarifa deveria ser coberta por subsídio do Governo
Federal. 4) O modelo de gestão de bacias hidrográficas introduzido pela ANA divide tarefas e responsabilidades com a comunidade local, e institui a cobrança de taxas pelo uso da água. Quantos comitês já foram criados e quais os resultados dessa experiência? R:
Em bacias hidrográficas cujo rio principal é de domínio da União, que
são as grandes bacias que se estendem por mais de um estado, o mais
antigo é comitê do rio Paraíba do Sul – Ceivap. Também já está instalado o comitê da bacia do rio São
Francisco e em fase de instalação os comitês do rio Doce e o do
Piracicaba, Capivari e Jundiaí. Ao
todo, contando os comitês de bacias contidas num único estado, há cerca
de 80 comitês no Brasil. O comitê de bacia hidrográfica é uma espécie
de parlamento das águas, permitindo que as decisões sejam
descentralizadas e participativas. Não
deve ser confundido com uma ONG porque é um braço do Estado que tem,
entre outras responsabilidades, a prerrogativa de determinar quanto e
quando cobrar pelo uso dos rios, que são bens públicos. Como a gestão
de recursos hídricos ainda é um tema recente entre nós, a maior parte
dos comitês encontra-se ainda na primeira infância, que também poderia
ser chamada de fase da “problemática”. Trata-se de um período em que
o comitê se concentra em diagnosticar a origem dos problemas que afligem
a bacia hidrográfica. Alguns poucos comitês, mais maduros, já atingiram
a fase da “solucionática”, em que o comitê já consegue aprovar um
plano para a bacia. Este plano deve conter, pelo menos, um conjunto de
prioridades para alocação da água, um programa de investimentos e uma
estratégia para o correspondente custeio, incluindo a cobrança pelo uso
dos recursos hídricos. 5) A ANA inovou ao vetar a liberação de recursos antes da execução de uma obra, preferindo efetuar o pagamento depois que o serviço estivesse sendo prestado. Quais os efeitos práticos dessa medida? R:
Muitos projetos, no Brasil e em outros países em desenvolvimento,
costumam consumir recursos financeiros na instalação da infra-estrutura,
sem jamais chegar à fase operativa. Isto porque existe um poderoso lobby
para construção, formado principalmente pelos empreiteiros e fabricantes
de equipamentos, e quase nenhum para o efetivo funcionamento da
infra-estrutura. Na lógica atual, os construtores e fabricantes lucram
proporcionalmente ao custo do empreendimento. Isto é, têm todo o
incentivo para maximizar custos. Para reverter este quadro, e induzir a
minimização de custos, a ANA lançou, em 2001, o Programa de Despoluição
de Bacias Hidrográficas - PRODES, que tem uma concepção inovadora no
que diz respeito ao mecanismo financeiro: não financia obras ou
equipamentos. Paga, isto sim, pelos
resultados alcançados. Isto é, paga pelo esgoto efetivamente tratado. Em
seus primeiros dois anos de funcionamento, foi possível viabilizar 28
estações de tratamento de esgoto – ETEs. Como
levamos a sério o princípio de decisões descentralizadas e
participativas, a escolha das ETEs foi feita não pela ANA e sim pelos
respectivos comitês de bacia. O pagamento pelo esgoto tratado, no valor
total de cerca de R$ 70 milhões, só será desembolsado ao
longo dos cinco primeiros anos de funcionamento das ETEs, se o serviço
for corretamente prestado. Caso contrário, não há desembolso e o
recurso, atualmente depositado na Caixa Econômica Federal, retorna ao
Tesouro Nacional. Com este arranjo, o prestador de serviços se livra do
risco de que o pagamento não seja efetuado por conta de futuro
contingenciamento orçamentário. Por outro lado, o governo se livra do
risco de que o serviço não seja prestado por conta de incapacidade do
prestador de serviços. 6) As doenças de veiculação hídrica (doenças causadas pela água suja) respondem pelo maior volume de internações do SUS. O que está ao alcance da ANA fazer para que a água contaminada não seja um problema de saúde pública? R:
O esgoto de cerca de 25% dos domicílios em cidades brasileiras não é
conduzido por tubulação alguma nem é recolhido em fossa sanitária.
Escorre “in natura” pelos valões que margeiam as ruas. Este é o
principal problema porque as pessoas, principalmente crianças, ficam
muito expostas ao contato. A
ANA não tem autoridade legal para atuar na solução deste problema
porque não é uma agência reguladora da prestação do serviço de
saneamento que, ao contrário do abastecimento de energia elétrica, é de
responsabilidade municipal e não federal. A
ANA é, isto sim, uma agência reguladora para uso dos rios. Atua para
enfrentar a poluição dos rios, considerada a segunda causa mais
relevante de veiculação hídrica de doenças. Através do PRODES -
Programa de Despoluição de Bacias Hidrográficas - será possível
despoluir os rios num prazo mínimo de dez anos e máximo de cinqüenta
anos, dependendo dos recursos que lhe sejam alocados. O prazo mínimo
decorre da limitação do país para construir simultaneamente um número
expressivo de estações de tratamento de Esgoto . O prazo máximo decorre
da limitação de credibilidade do programa. Isto é, se o PRODES andar a
passo de tartaruga, simplesmente deixará de funcionar. 7) Quanto o Brasil desperdiça de água e o que está sendo feito para enfrentar esse problema? R:
Temos que distinguir dois tipos de desperdício: o de água bruta e o de
água tratada. Na primeira categoria, as perdas mais relevantes ocorrem na
agricultura irrigada, que consome cerca de 65% da água doce de nossos
rios e lagos. Adotam-se práticas
muito gastadoras de água, como é o caso da irrigação por inundação
ou por sulcos. Nas bacias hidrográficas onde a água é escassa, como por
exemplo na do São Francisco, estamos discutindo com os governos estaduais
critérios para a concessão de licenças para utilização da água,
chamadas de outorgas, que façam a distinção entre métodos eficazes e
ineficazes de irrigação. A idéia é de que, em situação de racionamento, os irrigantes eficazes, que utilizam pouca água, terão prioridade sobre os ineficazes. Também na indústria muito pode ser feito para economizar, seja através do reúso, seja através de revisão dos processos produtivos. A ANA celebrou convênio com a FIESP para explorar todas as possibilidades. Tem também um convênio com a EMBRAPA para avaliar a possibilidade de uso de efluentes de lagoas de depuração, que trata esgotos urbanos, para irrigar lavouras que não impliquem riscos para a saúde. No que diz respeito às perdas de água tratada, a situação brasileira é ainda muito vexatória. As empresas de saneamento apresentam índice de perda total, composta pela perda física mais a perda comercial, variando de 18 a 70%. O índice médio é de 40%, muito alto. É necessário que se faça um grande esforço, em escala nacional, para diminuir este índice para algo “civilizado”, digamos, ao redor de 20%. Entretanto, conforme expliquei anteriormente, a ANA não tem autoridade legal para impor qualquer regulação sobre as empresas de saneamento. Trata-se de uma responsabilidade municipal. 8)
Muitos brasileiros consideram a água um recurso abundante na natureza. Além
disso, a maior parte das contas de água é cobrada por estimativa, e não
pelo relógio. Em que medida esses fatores estimulam o desperdício? R:
De fato, muitos brasileiros ainda se comportam como se houvesse a abundância
hídrica do início do século XX. Naquela época, imaginava-se que a água
seria inesgotável, como o ar. Nos centros urbanos, freqüentemente
construíam-se casas com os fundos voltados para os córregos, que serviam
apenas para afastar lixo e esgoto. Como no século XX a população foi
multiplicada por 3 e o uso de água por 6, a abundância se transformou em
carência. A
água dos rios que cruzam os centros urbanos, ainda que em quantidade
suficiente, ficou de tão má qualidade que freqüentemente não pode mais
ser utilizada para abastecimento de populações. Tem sido preciso buscar
água em mananciais cada vez mais distantes, a custos crescentes. Neste
ambiente, é fundamental que se altere a postura do desperdício,
lamentavelmente ainda freqüente entre nós. Refiro-me, por exemplo, ao
uso de água para varrer calçadas, aos lava a jato e ao hábito de deixar
a torneira ou mangueira aberta e sem uso. Acho que podemos ser otimistas
porque a população já demonstrou que, se bem informada, reage com
grande senso de responsabilidade social. Foi o que se viu durante o
racionamento de energia elétrica, em 2001. 9) Sendo a água um recurso cada vez mais escasso no mundo, há motivos para o Brasil se preocupar com a soberania da Amazônia e eventuais disputas pela água concentrada naquela região? R:
A abundância de água doce é de fato uma grande vantagem comparativa do
Brasil e poderia servir de pretexto para eventuais contestações de nossa
soberania da Amazônia. Entretanto, seria mero pretexto. Isto porque água
bruta não é uma “commodity”, como o petróleo, uma vez que não
existe um mercado disposto a consumir grandes quantidades de água, a um
preço que compense o custo do transporte. Nem tampouco se prevê o
surgimento deste mercado porque a maior do consumo de água doce do mundo,
cerca de 70%, é utilizada na irrigação. Para que se tenha idéia de
quanta água é necessária para produzir alimentos, posso dar o seguinte
exemplo: para produzir um quilo de milho são necessários cerca de mil
litros de água. Um quilo de frango, cerca dois mil litros. Vamos imaginar
uma pessoa com pouca criatividade culinária que coma diariamente 200 g de
frango e 800 g de milho. É só fazer as contas para concluir que esta
pessoa “come” cerca de 1200 litros por dia, uma quantidade de
água quinhentas vezes maior do que a que bebe. Naturalmente, este cidadão
não poderia pagar pela água que come o mesmo que paga pela água que
bebe. O que quero dizer é que uma coisa é o comércio internacional de
água mineral, que pode atingir altíssimos preços unitários, mas que
ocorre em escala relativamente modesta, apenas para atender às
necessidades de “beber”. Outra coisa seria o comércio a granel de água
bruta, como insumo agrícola. Devido à grande quantidade consumida “per
capita”, não seria sustentável que os preços unitários fossem muito
elevados. E como custa muito caro transportar água, o que faz mais
sentido é exportar alimentos, e não água. Esta é, aliás, a grande
vocação do Brasil. 10) Muitos especialistas se queixam da falta de campanhas de esclarecimento que pudessem revelar a responsabilidade do cidadão para com a água que consome. Neste ano internacional da água haverá alguma campanha do gênero ? R:
Efetivamente, seria muito bom que se realizassem estas campanhas de
esclarecimento. Ocorre, no entanto, que são muito caras, ultrapassando os
parcos recursos que a ANA recebe do Orçamento da União. Um eventual
engajamento voluntário e não oneroso da mídia seria extremamente
positivo para a construção de uma “cidadania hídrica”. 11) Qual a importância estratégica do Aqüífero Guarani, o potencial de exploração dessa fonte e os riscos disso ser feito sem o devido cuidado? R:
O aqüífero Guarani se localiza subjacente aos territórios do Brasil,
Argentina, Paraguai e Uruguai, a uma profundidade que oscila entre 50 e
1500 metros. Trata-se de uma reserva que admite uma retirada sustentável
de cerca de 40 quilômetros cúbicos por ano. Para dar uma idéia da ordem
de grandeza envolvida, esse volume é muito acima do consumo
urbano de todas as cidades localizadas em seu território.Os problemas
atualmente existentes ainda são pontuais. Porém, é necessária uma
ação dos governos para evitar a contaminação do aqüífero. A primeira
fase desta ação, de mapeamento dos fluxos do aqüífero e das zonas de
recarga, deverá ser iniciada ainda este ano, através de um projeto que
tem o apoio dos quatro países, do fundo mundial para o meio ambiente –
GEF, que foi criado a partir da Rio 92, do Banco Mundial e da Organização
dos Estados Americanos.
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